Dez posições acerca da revolução e da identidade comunista hoje

Μετάφραση στα πορτογαλικά από τη διακήρυξη της Κομμουνιστικής Επαναστατικής ΔράσηςΔέκα θέσεις για την επανάσταση – Κομμουνιστική Επαναστατική Δράση

Ευχαριστούμε τους συντρόφους της LCFI για τη διόρθωση και επιμέλεια της μετάφρασής μας. We thank our comrades from the Brazilian section of the LCFI for correcting our translation.

Ação Comunista Revolucionária

Dez posições acerca da revolução e da identidade comunista hoje

1. Nossas referências

A Ação Comunista Revolucionária inspira-se sempre nas grandes lutas revolucionárias como a Revolução Francesa, a Comuna de Paris, o Outubro Vermelho de 1917, Spartacus, a revolução espanhola, o dezembro de 1944 em Atenas, as revoluções e revoltas do pós-guerra contra os capitalistas e os burocratas tanto no Oriente como no Ocidente. Nos inspiramos nas grandes lutas, assim como também em todas as outras pequenas que são elos na cadeia da luta do proletariado internacional para a libertação social e a destruição do sistema capitalista imperialista, pelo poder operário, o comunismo e uma sociedade sem classes.

Os jacobinos, os clubes dos primeiros comunistas (Babeuf, Blanqui), Marx, Engels e seus camaradas, os revolucionários internacionalistas como Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, os bolcheviques da revolução russa, a 3ª Internacional de Lenin, Trotsky, Pouliopoulos [fundador do trotskismo na Grécia], a Oposição de Esquerda e a 4ª Internacional e outros militantes e pensadores revolucionários contemporâneos, sem qualquer obsessão ou mimetismo acrítico, são nossas referências, não apenas a nível ideológico e político, mas também pela sua intransigência militante na luta contra o Estado burguês e o capitalismo.

2. A via revolucionária para o socialismo

A Ação Comunista Revolucionária sabe que não há nenhuma outra maneira de chegar até uma sociedade socialista, senão pela revolução socialista. A perspectiva socialista não pode ser fruto de qualquer compromisso dos revolucionários proletários com a burguesia. A sociedade socialista não virá de uma queda «inevitável» do capitalismo decadente e senil. A rica experiência histórica, não nos permite acreditar numa série de reformas que vão nos levar progressivamente para uma outra sociedade, nem que a reação burguesa se renderá sem um confronto duro e violento. Posto tudo isso, estamos pelo caminho revolucionário e não pela via «democracia» parlamentar até o socialismo. É por isso que as forças que lutam conscientemente contra o Estado Burguês e pela revolução social global, precisam organizar-se em estruturas que correspondam a essa causa. Ela não pode ser resolvida por frentes e agrupamentos efêmeros supostamente úteis na situação atual, mas que sempre resultam em lutas fragmentadas, parciais e restritas ao limites do sistema contra uma ou outra forma de opressão, adiando indefinidamente para o dia seguinte a constituição de um plano global para a derrubada do poder burguês.

Isso não significa, no entanto, que neguemos a luta por reformas que proporcionem uma correlação de forças entre as classe favorável ao proletariado ou que resultem em melhores condições de vida para a classe trabalhadora e para qualquer outra parte da sociedade que, por qualquer motivo, se opõe a qualquer tipo de opressão. Toda a luta espontânea da classe trabalhadora contra a exploração, até mesmo a negociação mais simples pelo preço da força de trabalho, bem como qualquer luta contra a opressão múltipla sofrida por setores mais amplos da sociedade (minorias étnicas ou religiosas, imigrantes, mulheres, homossexuais), as lutas da juventude merecem o apoio pleno e incondicional da minoria revolucionária consciente, na medida em que objetivamente funcionam na disputa contra os interesses dos patrões e às políticas de seu representante coletivo, o Estado burguês, desde que não sejam lutas dirigidas contra outras fações oprimidas da sociedade. Isso não significa que a minoria revolucionária se torne um porta-voz de qualquer tipo de interesses corporativos. Certamente não significa que ela se identifique com os sujeitos dessas lutas parciais, tampouco. Os comunistas abordam sua participação na atual luta de classes como parte da luta global contra o sistema capitalista, não apenas como solidariedade às vítimas da exploração e opressão capitalistas e apoio para quaisquer expectativas que esses sujeitos possam ter. Ao mesmo tempo, a participação ativa nessas lutas é uma escola de classe e consciência política, bem como mais um ensaio para o confronto decisivo. Nenhuma «grande noite» e nenhuma tomada de poder poderá vir de pessoas e grupos políticos que vivem em isolamento político, indiferentes às lutas diárias, na nostalgia do passado glorioso. A nossa diferença com a esquerda não-revolucionária, que dogmaticamente insiste em uma maneira constitucional-democrática, não reside na recusa em participar das lutas dentro dos limites do sistema; mas no entendimento de que a nova sociedade não pode ocorrer por meio de um processo gradual e demorado de reformas, mas exige uma ruptura revolucionária, isto é, a destruição das bases das relações de produção capitalista – o Estado burguês.

3. Revolução permanente, contra o etapismo

A Ação Comunista Revolucionária defende a teoria da Revolução Permanente. Não existe um estágio intermediário entre o capitalismo e a revolução socialista. Não pode haver uma «verdadeira mudança», uma «rebelião democrática e popular», um «poder popular», uma «ruptura anticapitalista com a UE», sem a derrubada do capitalismo, a destruição do Estado burguês e a revolução socialista. Não há nada entre eles. No dia seguinte, a revolução socialista se estabelece um Estado operário, a ditadura do proletariado, para consolidar a vitória da revolução, defender suas conquistas e sufocar qualquer tentativa contrarrevolucionária. A revolução socialista só pode ser completada a nível global. Qualquer restrição dentro do estreito marco de um Estado-nação, bem como qualquer tipo de «socialismo em um país» não são apenas contraproducentes para a causa da revolução mundial, mas também funcionam como coveiros da revolução e da construção socialista no próprio País de onde a revolução começou. Com a extensão da revolução e das relações socialistas de produção a nível global, começa a fase da extinção do Estado. O estado que é necessário, indispensável e insubstituível para todo o período de transição é a ditadura revolucionária do proletariado.

4. A revolução não virá somente da intensificação das lutas espontâneas

As lutas espontâneas não geram automaticamente a consciência revolucionária, nem sua «coordenação e escalada» formam o sujeito que liderará a luta contra o domínio burguês e por sua derrubada. A escalada dessas lutas não resulta necessariamente em uma revolução, tampouco. A consciência revolucionária não pode ser transmitida a amplas camadas da classe operária simplesmente por meio de uma propaganda contínua, exaustiva mas abstrata sobre a falência do capitalismo e a superioridade do socialismo. Nem pode ser construída durante as lutas econômicas por demandas imediatas. Nunca houve, nem jamais haverá, revoluções que aconteçam sem os esforços conscientes de seus sujeitos. A revolução só pode surgir na base de um plano consciente que é realizado por forças que estão plenamente conscientes de seu propósito. Sempre que essas forças eram fracas, nenhum tipo de resistência resultou em um confronto final com a classe dominante e o Estado burguês, independentemente de quão massiva ou «orientada para a classe» possam ter sido. O elemento que liga as revoluções desde 1789 até hoje é a existência de sujeitos políticos conscientes que desempenharam um papel protagonista nelas, ao mesmo tempo em que assumiram a responsabilidade pelo dia seguinte.

A revolução não pode ser completada sem uma insurreição pela derrubada do regime político e a tomada do poder pelo proletariado revolucionário. A insurreição é uma arte, e ela não pode ter lugar sem um plano que inclua a tomada dos centros-chave do aparelho de Estado, o controle das cidades, telecomunicações, estradas, aeroportos, portos e, claro, de todos os edifícios governamentais. Nenhuma insurgência pode tomar o poder sem a existência de uma direção política determinada na vanguarda de toda a conflagração entre as classes – um partido revolucionário consciente do seu propósito, que sabe o que o Estado burguês derrotado será substituído e quais as medidas imediatas serão tomada em nome da ordem socialista.

5. A amplitude da luta de classes

O marxismo do século XIX esperava que, através da maturação do capitalismo e da classe operária, a ideia de socialismo simultaneamente amadurecesse. Para os nossos antepassados, as nações avançadas que expressaram essa maturação foram objetivamente os líderes da luta pela transformação social. Então veio Lênin com a teoria do elo mais fraco e Trotsky com a teoria da revolução permanente, derrubando essa hierarquia.

Uma luta de classes «pura», sem a intervenção de elementos de classe externos é uma mera fantasia. É uma versão análoga da ilusão de um capitalismo puro sem intermediários, bancos, monopólios e Estado. Tal capitalismo imaginário, o sonho de todo pequeno-burguês, não existia mesmo na aurora do capital. O capitalismo não é composto apenas por trabalhadores e patrões, nem se resume apenas em valor e extração de mais-valia. O capitalismo pode ser reduzido a isso somente se removemos o Estado e toda a superestrutura política que sustenta essa «relação dominante». Além disso, o capitalismo é o imperialismo da era de Lênin, que traz consigo uma hierarquia diferente nas prioridades do movimento comunista revolucionário no século XX. A exploração de nações mais fracas pelos dominantes, os antagonismos inter-imperialistas, a existência de Estados operários ou Estados que desafiam a ordem geopolítica imperialista em qualquer momento, criam um contexto muito mais complexo que não pode ser reduzido de forma simplista ao conflito entre o patrão e o trabalhador.

Assim, se o capitalismo é uma formação social inteira que se reproduz não só através da reprodução da exploração do trabalho, mas através de todo um sistema social, que tem múltiplas hierarquias e diferentes modelos de gestão, que estabelece amplos blocos de poder que correspondem à sua condição Em qualquer momento, com um sistema de ideias – dominantes – e a superestrutura política correspondente, a luta de classes é a luta contra o sistema como um todo. Só através desse prisma pode ser vista a contradição fundamental entre capital e trabalho. Afinal, sem o invólucro protetor desta superestrutura (Estado burguês, instituições, ideologia dominante), nenhuma «relação econômica dominante» poderia ser reproduzida. Portanto, a luta de classes é a luta dirigida contra o sistema que defende e reproduz não só a exploração da força de trabalho, mas também todas as outras formas de exploração e opressão. A análise marxista do capital desmistificou-o e o expôs como mais um sistema de classe baseado no roubo do trabalho humano – através do roubo legal que é a apropriação do excedente pelos proprietários dos meios de produção. No entanto, esta análise não significa que os comunistas possam ser isentos da luta mais ampla e mais importante contra a opressão geral que uma sociedade de classe capitalista gera. Portanto, a luta contra o Estado burguês e suas políticas não se limita simplesmente às lutas econômicas. A luta é também contra as políticas do Estado burguês que reproduzem o mito da nação, e dos membros «saudáveis» da nação (militarismo, nacionalismo, fascismo, sexismo, patriarcado). Através dessas políticas, a classe burguesa é capaz de construir uma aliança intercalasses sob sua hegemonia. A luta contra esta política é a forma mais elevada e direta da luta de classes. E é muito mais importante do que a luta por melhores salários ou pensões – coisas que, afinal de contas, o capitalismo é capaz de proporcionar, pelo menos nos países imperialistas em tempos de prosperidade (“Estado de bem estar social” – o welfarestate, contrato social etc.).

6. Uma revolução sem sujeito político, está condenada a derrota

Na luta política, o sujeito é formado por aqueles que conscientemente participam dessa luta. E é luta de classes, independentemente das origens sociais dos participantes. Afinal, as classes não conflitam como tal, mas através de múltiplas mediações e em um nível superior ao primário, que envolve apenas a negociação do preço da força de trabalho. A luta pelo poder político é a forma mais elevada de luta de classes. Essa forma de luta não pode ser realizada espontaneamente, mas apenas conscientemente, através de estruturas criadas para a conquista deste fim. Da mesma maneira que o Estado burguês representa, em última instância, os interesses da classe dominante, também as forças políticas que estão do lado oposto representam, em última análise, os interesses da classe operária. Dizemos que eles representam os interesses da classe trabalhadora em última análise, não diretamente, porque a classe operária em si é dividida em interesses corporativistas. E a competição entre cada proprietário da mercadoria de «força de trabalho» contra os outros não cria automaticamente uma comunidade de interesse; Isso só pode ser alcançado superando todas as separações verticais e horizontais. Um pré-requisito para isso é a ruptura de uma grande parte do proletariado com a ideologia dominante, entrando na luta política contra todo o sistema. As lutas espontâneas podem ajudar no processo dessa ruptura, mas não podem substituir essa ruptura ideológica.

O que importa para o campo da revolução é a concentração das forças conscientes, independentemente de sua origem social, desde que não estejam isoladas das massas proletárias, naturalmente, que estão plenamente conscientes dos objetivos da derrubada revolucionária e que conscientemente perseguem esses objetivos. O fato de que as ideias revolucionárias encontrem eco entre outras camadas da sociedade, como fazem entre a classe operária, prova que a revolução inspira não só a classe operária, mas atravessa verticalmente toda a sociedade. Da mesma forma as ideias dominantes não se importam se uma pessoa é um trabalhador ou não antes de entrar em sua mente. A luta contra a exploração e a opressão não diz respeito exclusivamente às suas vítimas diretas. Isso quer dizer que àqueles que não são vítimas diretas não possuem menos direito de agir contra a exploração e a opressão, e, algumas vezes podem agir até mais do que aqueles que estão «diretamente» envolvidos. Quem se une conscientemente ao campo da revolução é axiomaticamente um sujeito dela (não somente os que solidarizam com a causa, ou possuem uma consciência externa a do verdadeiro sujeito social, que até então «não conhece a sua missão histórica»), assim como um policial do Estado pertence conscientemente ao exército da burguesia – mesmo se ele / ela vier de uma família da classe operária. Infelizmente, a origem da classe não gera automaticamente a consciência respectiva. A escolha do campo de classe é uma atitude subjetiva que depende não tanto da origem social, mas da atitude do indivíduo em relação ao sistema de opressão. O fator decisivo é romper com a ideologia dominante, que é a ideologia da classe dominante. Recordemos do conjunto da obra de Marx, não só as partes que nos convêm.

A luta de classes é a guerra e seus protagonistas estão envolvidos nela conscientemente, não incidentalmente. As revoluções que testemunhamos na história recente após a Revolução Francesa tiveram um certo conteúdo de classe social, definido não por uma redução mecanicista de seu sujeito social, mas pelo programa que as forças dirigentes se comprometeram a implementar. É por isso que essas revoluções, independentemente de suas simpatias, foram desenhadas por aqueles que estavam na vanguarda, sem os quais nada teria acontecido. Os jacobinos na Revolução Francesa, os blanquistas na Comuna, os bolcheviques em 1917 na Rússia, os Spartaquistas um pouco mais tarde na Alemanha, a CNT (principalmente, mas outras forças políticas também) na Revolução Espanhola, o EAM-ELAS na Grécia em 1944, as lutas guerrilheiras de Tito e Mao, a revolução árabe de Nasser no Egito em 1952, Castro e Che em Cuba, a FLN em Argel em 1962, os Vietcongues no Vietnã, os sandinistas em 1979 a Nicarágua, o movimento de forças armadas de Carvalho em 1974 Portugal, o movimento bolivariano na Venezuela, os zapatistas no México etc. Revoluções: algumas ganham, outras perdem, outras ficando no meio do caminho, outras ganham, mas se degeneram. Revoluções que tiveram problemas, cujo resultado podemos não gostar, revoluções que poderiam ter sido feitas de uma maneira diferente ou poderiam ter evoluído de forma um pouco diferente. Essas revoluções – e muitas outras – sempre tiveram um significado político e um propulsor consciente. Isso pode estragar as receitas para revoluções espontâneas ou para revoluções que se desenvolvem no tempo no curso prescrito para elas pelo determinismo histórico, mas sem essas condições básicas nenhuma revolução pode ocorrer. Os diferentes campos da luta de classes evoluem e se expandem. A propósito, não se pode tentar limitar a luta de classes apenas aos locais de trabalho, pois isso significaria não ver que a luta de classes está em todos os lugares com o mesmo peso. E a amplitude da luta de classes é determinada pelo campo burguês quando a polícia é enviada para lidar com uma greve (para ajudar o patrão), ou quando a OTAN é despachada para lidar com uma revolução. Sendo assim, se a exploração no local de trabalho continuará ou não depende exatamente do resultado de uma batalha que é travada longe desse local de trabalho.

7. Revolução: por que e por quem?

A esquerda reproduz, quase inteiramente, o mito de que a revolução é dirigida por um sujeito social original e inesgotável, que em nenhuma circunstância pode ser «substituído» por ninguém, subestimando assim o papel do sujeito político na revolução. A reprodução deste mito há décadas faz com que os comunistas se identifiquem com as vítimas da exploração. Nesse sentido, o «sujeito original» da luta pelo socialismo é a classe operária sem mediações. Para uma luta mais ampla pela democracia, pelos direitos civis, etc., o sujeito é «o povo» ou uma «aliança popular». Todas estas variações – assim como muitas outras – que a esquerda não revolucionária usou no passado, baseiam-se na identificação equivocada de «classe em si» com «classe para si». A classe operária não é revolucionária por natureza. Pelo contrário, é objeto de exploração. Somente quando as frações de oprimidos atuam de maneira consciente contra a exploração e a opressão (isto é, as condições de existência de toda a classe trabalhadora), através do partido revolucionário, esta classe se torna uma classe revolucionária.

A libertação dos oprimidos supõe a destruição do sistema que produz exploração e opressão. Ninguém está substituindo ninguém ao agir contra esse sistema. Nenhuma força política representa exclusivamente ou de qualquer forma a classe trabalhadora como um todo, nem qualquer outro «movimento social» representa a classe trabalhadora mais do que qualquer outro. Os discursos sobre a «imaturidade das condições objetivas ou subjetivas» ou a «substituição de toda a classe como tal» só são bons para justificar a recusa de empreender a ação revolucionária. O dilema não é entre a substituição da classe ou luta de classes sem mediação, mas entre a linha conciliadora ou a linha revolucionária dentro do movimento. Afinal, a classe operária não atua de maneira alguma sem mediação, nem se torna uma classe para si mesma, a menos que adote uma agenda política de combate para a sociedade burguesa como um todo. A insatisfação causada pelo roubo da mais-valia não é suficiente. A existência de um plano político alternativo para uma organização diferente da sociedade é necessária. A exploração e a opressão não sugerem uma alternativa às suas vítimas. O desenvolvimento desta alternativa é um produto de processos mentais, não um produto de reflexões do estômago que as enviaria para as células cerebrais.

8. A crise da esquerda e a fuga para um “passado idílico”

A dramática experiência do «socialismo real» na Europa Oriental e na Ásia, o stalinismo, a degeneração dos PCs e da socialdemocracia, a burocratização dos sindicatos, o colapso dos anos 90 trouxeram uma enorme onda de desapontamento a milhões de pessoas ao redor do planeta que acreditavam no «novo mundo». As ondas de imigrantes desses países, procurando o «Sonho Americano» no Ocidente e, ao mesmo tempo, amaldiçoando a «Cortina de Ferro», foram mais uma bofetada para todos aqueles que acreditavam na possibilidade do socialismo. Mesmo aqueles que se opunham à burocracia stalinista viram-se igualmente afetados por essa onda de derrota e frustração.

Durante os anos 90, a Esquerda em todo o mundo voltou à sua infância, a luta de classes “pura”. Vamos reviver o mito desde o início, eles pensaram, vamos fazer retroceder o pesadelo do século XX. Mas, juntamente com a água do banho, eles jogaram fora também o bebê. Junto com 1990, eles também afogaram 1917, bem como as melhores tradições do movimento comunista. Ao repelirem os anos 90, também as causas do colapso nunca foram analisadas seriamente.

Toda uma geração de militantes foi formada neste ambiente, com o fetichismo da luta corporativista, da resistência e, claro, da busca pela luta de classes «pura”. É preciso evitar de cair nessas armadilhas com estratégias, planos políticos e a transformação revolucionária da sociedade. Todo plano político tem sido tratado ao longo destes anos com suspeita, de uma maneira aparentemente astuta (mas completamente inocente). Esta maneira de pensar afetou toda a esquerda, mesmo a esquerda trotskista em todas as suas versões. O economicismo, voltado apenas para as questões imediatas, da resistência ao neoliberalismo, adorando a espontaneidade, somados a redescoberta do altermundismo e a volta as bases: tudo isso formou a esquerda que temos hoje. Uma esquerda que pode diferir teoricamente em suas referências históricas, mas na prática política atual, essas diferenças não passam de uma rala superficialidade. O economismo e o altermundismo são seus lugares comuns e seus portos seguros. Os pobres resultados quando ocorre um esforço de síntese são a consequência natural desse ambiente. Nesse cenário, o reformismo vem como o outro lado da mesma moeda, o do economismo e do culto ao espontaneísmo. No entanto, 2013 não tem nada a ver com 1813 e o retorno às raízes prova ser uma farsa.

Como resultado desse curso, a esquerda de hoje, em um ambiente internacional e grego de crise estrutural do capitalismo, fica atônita com a situação, é incapaz de interpretá-la e dar as respostas políticas necessárias. Seus setores hegemônicos resistem, autistas, às ilusões de uma gestão orçamentária «popular» inatingível, ao mesmo tempo em que faz vista grossa à natureza de classe e ao caráter do Estado burguês. Ao mesmo tempo, uma parte diferente dessa esquerda está se entregando a uma defesa metafísica do anticapitalismo que não consegue resultar em um programa de transição revolucionário coerente, perde-se sem um método de intervenção nas batalhas políticas centrais existentes.

Mesmo aquela parte da esquerda que ainda se refere à revolução adota e desenvolve a compreensão de uma revolução sem uma insurreição organizada. Na imaginação desta esquerda, a revolução se assemelha a um festival sem fim de milhões de manifestantes nas ruas e praças, que forçaria o governo a deixar o país por helicóptero – depois de dez dias de greve geral ter paralisado tudo. Esse mito vem flagelando a esquerda radical desde 1968. É a replicação do modelo herdado do maio francês se encaixa perfeitamente ao economismo e à fetichização absoluta dos movimentos de massa «de baixo» que caracterizam a esquerda existente. Se este esquema teve alguma probabilidade de sucesso em 1968, ele não tem absolutamente nenhum hoje.

Em 1968, o mundo era completamente diferente. Um terço do planeta declarou-se socialista, mesmo que fosse um punhado de burocratas que detinham o poder. Além disso, uma série de movimentos contra a burocracia nesses países, como a «Primavera de Praga» ou a ilusão de uma «revolução cultural» contra as «camarilhas que querem reintegrar o antigo regime», deu a impressão de que nada havia se perdido para sempre. Para a esquerda da esquerda, na época, tudo se resumia à liberação da enorme dinâmica de massa de baixo que foi sufocada pela burocracia stalinista e sindical, que era todo-poderosa não só no Oriente, mas também no Ocidente. Este foi o auge da ascensão do movimento em todo o mundo após a Segunda Guerra Mundial. O sentimento no final dos anos 60 era que o planeta logo ficaria vermelho e que «o último capitalista seria pendurado nos intestinos do último burocrata».

Mas, ao invés disso, alguns anos depois veio Reagan, Thatcher, o colapso da Europa Oriental, a restauração da hegemonia dos Estados Unidos depois da derrota no Vietnã e a completa dominação do neoliberalismo que pôs fim ao pós-Guerra social. A esquerda da esquerda de 1968 foi derrotada, porque caiu vítima das obsessões sobre a invencibilidade do movimento de massa espontânea, que supostamente desdobraria a ação que estava destinada a desdobrar e pavimentar o caminho para o reino da liberdade, desde que apenas que foram libertados da influência dos mecanismos burocráticos reformistas. Esta esquerda pode ter sempre falado de uma revolução, mas esqueceu-se de que, para ganhar, uma revolução exige um plano consciente para a tomada do poder no momento certo, não apenas algumas centenas de milhares de manifestantes «celebrando» nas ruas. E, mais importante ainda, que uma revolução precisa de forças conscientes que assumam a responsabilidade por este plano, sem esperar que os reformistas (apesar de qualquer pressão que possa ser exercida sobre eles) ou o «povo» por conta própria assumam tais responsabilidades.

9. Revolução Global e a descontinuidade – crise – do sujeito político

O socialismo não pode ser construído sem a extensão da revolução em escala global, longe de – e apesar de – qualquer tipo de ilusões de desenvolvimento nacional ou socialismo em um país. Portanto, o programa de revolução socialista em qualquer país só pode ser conectado com o programa da revolução socialista mundial. Tal programa levanta a necessidade de uma organização em escala global.

A Quarta Internacional foi a última tentativa de organizar os revolucionários a nível internacional após a degeneração da Terceira Internacional. Hoje, 75 anos após sua formação, a Quarta Internacional está fragmentada em uma série de centros internacionais com orientações e planos políticos completamente diferentes. O trotskismo é agora uma parte da crise de toda a Esquerda. A causa da crise não é tanto as diferentes táticas que suas diferentes facções adotaram de tempos em tempos; É principalmente a incapacidade de desempenhar um papel decisivo em eventos revolucionários de grande escala. Durante um período em que ocorreram revoluções (Iugoslávia, China, Cuba, etc.), o trotskismo apenas as observou de longe. O colapso da URSS e dos seus satélites foi o golpe final. O colapso do «socialismo realmente existente» provocou uma crise existencial na identidade trotskista.

Então, o que permanece neste momento? O trotskismo era o oposto do stalinismo. A voz pedindo a restauração da revolução de outubro. Mas outubro foi derrubado do outro lado. Agora precisamos refletir sobre uma gama mais ampla de perguntas: por que a classe trabalhadora não defendeu o Estado Operário? Por que ele ficou indiferente à nossa existência? Por que não se voltou para a Quarta Internacional, como a única força comunista consistente, enquanto os Partidos Comunistas estavam desmoronando junto com a queda da bandeira vermelha no Kremlin? Por que é que agora, quando o estalinismo está saindo do caminho, nós trotskistas não conseguimos preencher a lacuna? Porque, muito simplesmente, o trotskismo de hoje tornou-se uma parte do impasse de toda a Esquerda.

O trotskismo de pós-guerra – bem como toda a esquerda – foi moldado em grande parte pelos acontecimentos de maio de 1968. O fracasso do trotskismo a desempenhar um papel importante durante esses eventos não deixou-o imune a derrota e a decepção que se seguiram. Mas, em vez de tentar extrair conclusões desta derrota, o trotskismo escolheu mais uma vez retornar ao abrigo permanente: A classe operária ainda não entrou na cena. Ela ainda está preso na socialdemocracia e no Partido Comunista. Nós provavelmente devemos nos apegar lá também e esperar. Depois veio o compromisso histórico, a «mudança» (uma referência à ascensão ao poder do PASOK), o «89 sujo» (uma referência à participação do Partido Comunista da Grécia em um governo burguês), a queda dos ’90 e uma geração inteira foi para casa, cansada de esperar. Em vez de reforçar o trotskismo e forjar a sua unidade, estes acontecimentos levaram a novas frustrações e novas divisões. Agora é impossível falar de um movimento trotskista; Só podemos falar de uma referência histórica a uma corrente política que não existe mais, nem como metodologia, nem como formação real. O trotskismo de hoje é meramente uma sombra de si mesmo. Os trotskistas estão agora inseridos em todas as partes da esquerda. Estamos falando de uma identidade em completa confusão; Esta situação não pode ser corrigida simplesmente usando o Programa de Transição de 1938 como referência.

A tarefa de hoje não é a defesa de uma identidade trotskista metafísica sem quaisquer questões políticas específicas que a distingam a nível programático e político, uma identidade em nome da qual se justificam todo o tipo de tácticas e decisões. Que todos assumam a responsabilidade por suas escolhas. Não há razão para a história de uma corrente política que deu suas batalhas honesta e orgulhosamente ser vilipendiada e envergonhada. Os epígonos de Trotski não conseguiram moldar uma estratégia e uma política vitoriosas, mas isso não significa que o trotskismo tenha sido derrotado em um nível ideológico. Mantenhamos o espírito revolucionário desta corrente, a metodologia do Programa de Transição, a defesa do bolchevismo, da revolução permanente e, sobretudo, do próprio Trotski. O homem que ousou confrontar a ortodoxia marxista de seu tempo, que ousava mudar prioridades, arriscava-se a violar os «inevitáveis» estágios do desenvolvimento social imaginados pelos gigantes da socialdemocracia alemã. O homem que, nos tempos mais sombrios do Termidor stalinista, ousa arriscar sua própria vida, até o fim, para salvar o que poderia ser resgatado do legado revolucionário de outubro. Isto é o que precisamos hoje para colocar o comunismo em pé novamente; Para trazer o comunismo de volta ao centro dos acontecimentos, como protagonista e organizador da revolução, e não como um «portador da consciência» que deve ser transmitido ao supostamente responsável pela libertação da humanidade, designado pelas «leis implacáveis” do desenvolvimento histórico. Quando o comunismo deixa de ser tratado como consciência e se torna um movimento, só então começará uma nova era de revoluções; Uma era de revoluções liderada pelo próprio comunismo, não por aqueles que se esforçam para cobrir a lacuna em sua ausência – aguardando o «sujeito social destinado pela história» para fazer tudo.

10. Pela a organização da minoria revolucionária hoje; Por uma nova identidade comunista

A Ação Revolucionária Comunista não reivindica qualquer infalibilidade papal, nem se considera como o único herdeiro da tradição marxista. E não poderia fazê-lo, pois considera o comunismo como uma teoria revolucionária aberta, não um sistema de pensamento fechado definido pelos clássicos. Marx, Engels, Lênin e Trotsky, que contribuíram muito, mas a história do movimento comunista não começou com eles, nem terminou com eles. Uma teoria revolucionária não é, de modo algum, uma verdade infalível. Que infelicidade seria se os atuais lutadores sociais não assumem as responsabilidades teóricas e práticas que lhes são atribuídas. Imaginemos, se Trotsky acreditasse que as questões teóricas tivessem sido concluídas e resolvidas somente com tudo aquilo que deixou Lenin como herança; imaginemos se Lênin tivesse pensado o mesmo e se contentado apenas com o prefácio de Engels da “Luta de Classe na França”. Quem quiser honrar os clássicos deve continuar seu trabalho; E sua tarefa é superá-las se quiser continuar a ser útil na luta pela revolução socialista, pelo poder operário e pelo comunismo. Cada um tem de assumir as suas responsabilidades com coragem e não esconder-se por detrás dos “monstros sagrados”.

Entendemos que o combate ao Estado burguês e seus mecanismos exige forças a altura da tarefa, capazes de resistir à escala real do conflito. Nenhuma revolução poderá ser vitoriosa sem reunir essas forças políticas e organizativas conscientemente planificadas.

A atual crise capitalista, a maior desde 1929, atingiu o centro da metrópole capitalista, pondo fim a todo equilíbrio estabelecido no pós-guerra, bem como a quaisquer resquícios do contrato social. A entrada do capitalismo global em uma longa onda de recessão traz consigo o fim do sistema político e da esquerda como a conhecemos até hoje. O estado de emergência, aliado à presença dos fascistas no centro do cenário político, chega a preencher o vazio deixado pelos partidos que estavam gerenciando o capitalismo até agora.

Durante os últimos três anos, a Grécia viu mais luta do que viu em qualquer outro período, pelo menos durante os últimos 40 anos, talvez até mesmo desde a guerra. Mais de 25 greves gerais, centenas de milhares de manifestantes nas ruas. No entanto, este movimento foi derrotado. Aqueles que percebem a seriedade não só da situação atual, mas também de um período histórico mais amplo, e particularmente a seriedade do que está por vir, devem organizar suas forças aqui e agora.

Precisamos de uma esquerda revolucionária que corresponda aos tempos em que vivemos. Uma esquerda que não vai esquecer e descartar as experiências históricas passada, que avalie estas experiências com tranquilidade (e que especialmente se mantenha fiel ao espírito da Revolução de Outubro, e de Lenin e Trotsky), mas sem a vontade de ficar presa no passado. Uma esquerda que não vai se esconder por trás de sua história, que pretende abrir um novo caminho e quebrar tudo o que, possivelmente, a une com a esquerda oficial. A esquerda que se vê a si mesma como um movimento, não como conselheira para pessoas que nunca alegaram ter qualquer desejo de lutar por conquistar seus objetivos. Uma tal esquerda não pode ser construída junto com aqueles cuja única preocupação é a viabilidade do setor financeiro e a reorganização produtiva da economia do país, nem com aqueles que animam o «NÃO» patriótico da burguesia cipriota, que não continha o menor vestígio de anti-imperialismo, mas apenas sua expectativa de defender o modelo capitalista que lhes rendeu bilhões de lucros durante todos esses anos. Acima de tudo, não pode ser construído em qualquer lugar perto daqueles cuja política limita-se a fazer chamados ao «o povo» para que «tome seu destino em suas próprias mãos», e que ato contínuo se espanta diante da visão de anfitriões patriotas irritados choramingando e exigindo de volta da Belle Époque do Milênio perdido, juntamente com o mercado de ações dos cassinos, dos empréstimos hipotecários e dos cartões de crédito sem limites.

Num momento em que os problemas da vida cotidiana não podem ser resolvidos sem a derrubada revolucionária do capitalismo (não apenas no sentido histórico, mas também no real, uma vez que os problemas surgem da situação dada no quadro da crise capitalista), a combinação necessária destes problemas com o objetivo da revolução é a primeira prioridade de nossa agenda. Essa ponte não pode ser alcançada nem pelo minimalismo[do programa mínimo], nem pela fraseologia maximalista abstrata. A lógica de transição, deve ser utilizada como método e não como uma transferência ossificada de demandas de um período passado, é a ferramenta-programa que é moldada sob as condições da situação objetiva, não das intenções subjetivas e do nível de consciência das massas. É por isso que essas exigências de transição formam eixos de luta pelos quais a minoria politicamente consciente torna-se capaz de reunir amplas massas do proletariado ao seu lado e desencadear lutas revolucionárias contra o capitalismo.

Sabemos que tal Esquerda só pode ser construída contra a corrente, investindo antes de tudo na formação de uma nova identidade revolucionária e comunista. Isso não significa abster-se de participar dos confrontos no calor da luta de classes; ao contrário, este é exatamente o lugar onde está esquerda será forjada, dando a batalha nas ruas e onde for necessário, golpeando juntos enquanto marcham separadamente, com suas próprias bandeiras, programa e identidade. Levando em conta a condição do movimento operário, a relação das forças de classe e a situação política geral em determinado momento, e determinando sua política com base nesses critérios. Não será uma organização como as outras e que vai fazer o mesmo que todas as outras. Trata-se duma percepção e um pensamento completamente diferentes. Um vazio muito grande que estamos chamados a preencher.

Atenas, junho 2013

Ação Comunista Revolucionária

 

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